SEXTA-FEIRA DA PAIXAO - Descimento da Cruz e Procissão de Nosso Senhor Morto
 
     
  Na Sexta-Feira da Paixão, as cerimônias começam às 3.00 da tarde com a Adoração da Cruz e a Missa dos Pré-Santificados. Nestas celebrações o coral tem um repertório próprio que inclue o tractus 'Eripe me', de Padre João Baptista Lehmann, bem como Venite e o moteto Popule Meus de compositores deconhecidos.  
     
 

Eripe me, Domine ab homine malo, a viro iniquo eripe me.
Qui cogitaverunt iniquitates in corde, total die constituebant praelia.
Acuerunt linguas suas sicut serpentis venenum aspidum sub labiis eorum.
Custodi me, Domine, de manu peccatoris, et ab homanibus iniquis, eripeme.
Qui cogitaverunt supplantare gressus meos absconderunt superbi laqueum mihi;
Et funes extenderunt in laqueum, juxta iter scandalum posuerunt mihi.
Dixi Domino: Deus meus es tu: exaudi, Domine vocem deprecationis meae.
Domine, Domine virtus salutis meae obumbrasti super caput meum in die belli.
Ne tradas me, a desideria meo peccatori; cogitaverunt contra me ne derelinquas me, ne forte exaltentur.
Caput circuitus eorum labor labiorum ipsorum operiet eos
Verumtamen justi confitebuntur nomini tuo: et habitabunt recti cum vultu tuo.

 
     
 

Livrai-me, ó Senhor, dos homens maus, preservai-me dos homens maldosos,
Daqueles com más intenções em seus corações, que se juntam para a guerra.
Eles têm afiado suas línguas como serpentes, o veneno da serpente está entre seus lábios.
Protegei-me, Senhor, das mãos dos maldosos, e preserve-me dos homens maus
Que pretendem inibir meus movimentos. Os orgulhosos prepararam uma armadilha para mim
E estenderam uma rede de cordas no caminho para me pegarem.
Digo ao Senhor: Tu és meu Deus, ouça a minha voz de súplica, Ó Senhor.
Ó Senhor, meu Senhor, Tu és a força da minha salvação. Tu tens protegido minha cabeça no dia da batalha!
Não me deixes, ó Senhor, cair nos desejos dos pecadores. Eles conspiram contra mim. Não me abandones, para que eles não se exaltem.
Quanto à cabeça daqueles que me rondam, que o mal de seus lábios os cobre.
Certamente os justos lhe darão graças e permanecerão na sua presença.

 
     
 

Popule meus, quid fecit tibi? aut in quo contristavi te? Quia eduxi te de terra Aegypti, parasti crucem Salvatori tuo, Responde mihi.

Povo meu, que te fiz eu? Ou em que te contristei? Porque tirei-te da terra do Egito, preparaste uma cruz para teu Salvador. Responde-me.

 
     
  O momento principal da Semana Santa, contudo, ocorre à noite com a cerimônia do 'Descimento da Cruz', que é seguida pela Procissão de Nosso Senhor Morto. O Descimento é feito diante da Catedral na presença de uma grande multidão. Durante a cerimônia uma imagem grande de Cristo com braços articulados é retirado da cruz e colocado num esquife aberto e levado em procissão pelas ruas da cidade.

De acordo com uma devota campanhense: "O Descimento é o momento mais triste da Semana Santa. A gente pode ver como Jesus sofreu. Eles tiram a coroa de espinhos e até parece que a gente vê o sangue escorrer. ... Tiram os cravos, um por um. Que dor! E os braços descem, um depois do outro. Ai os pés. E a dor da mãe dele, da Nossa Senhora, então?"

A dramatização atual continua a gerar sentimentos similares aos do final do século 19 descritos pelo campanhense Francisco de Paula Ferreira de Resende, que em suas memórias disse que a sexta-feira da paixão feria "os sentimentos com objetos unicamente tristes e mais ou menos lúgubres, enchia-nos a alma de uma dor pungente que de alguma sorte a acabrunhava e ao mesmo tempo enchia de remorsos. E com efeito, como era solene e triste, naquela imensa igreja que se chamava a Matriz da Campanha, meio obscurecida e atulhada de povo, o ver sair, não se sabe donde, alguns padres, todos cobertos de branco até a cabeça; e em silêncio, com o passo vagaroso e de um modo em que tudo respirava o mistério, dirigem-se ao calvário; e ali chegando e depois de contemplarem por algum tempo o Cristo que ali se achava suspenso entre dois ladrões, e com a cabeça pendida e os braços abertos parecia chamar a si a humanidade inteira; em seguida, colocarem escadas ao madeiro em que ele estava pregado; com o martelo tirarem-lhe os cravos; com o auxílio de toalhas descem-no da cruz; colocarem-se em um esquife; e tomando a este sobre os ombros, o conduzirem em procissão, até que vinham afinal na volta colocarem-no no sepulcro que para ele já se tinha preparado! E que procissão!

"Calados os sinos que nunca se calam e nesse dia ficam surdos, a procissão sai da matriz, não simplesemnte calada mas em um como que furtivo segredo; e mostrando um tudo quanto à forma, um ar verdadeiramente misterioso e santo, essa tão solene procissão vagarosa caminha por entre as trevas que envolvem a natureza inteira; e sempre silenciosa percorre as ruas da cidade sem que outra voz se ouça senão a voz da Verônica, que trepada sobre um tamborete de espaço em espaço a todos pergunta se há uma dor que se possa comparar à sua e que então lacrimosa a todos mostra a sanguentada imagem do Divino Salvador: ou então a voz da música que nos mais melancólicos acordes chora em surdina a morte de um Deus e a imensa grandeza do pecado do homem. E como se no meio de toda essa imensa tristeza nada devese faltar que nos recordasse todos os pontos desta tão triste história, nessa procissão nada falta que de perto ou que de longe se entrelace com o grande mistério da redenção. Aqui é Izac, por exemplo, que leva às costas o seu pequeno feixe de lenha, ali é Madalena arrependida e toda desgrenhada que chora os seus pecados e a saudade d'Aquele que a perdoou; mais adiante são ainda as Behús ou o discípulo bem amado que em um livro que leva aberto vai escrevendo o evangelho; até que a procissão entra na igreja; o corpo é deposto no sepulcro; um centurião, o guarda e o vigia com os seus soldados; e no meio do sermão que a tudo isto se segue, abre-se de repente a cortina da capela-mor; e o calvário de novo aparece, mas agora já todo iluminado e coberto de anjos."

 
     
 
 
     
  Embora alguns elementos da descrição acima já não façam mais parte das práticas da sexta-feira em Campanha, o ambiente de contemplação, tristeza e mistério continuam presentes. Ouve-se ainda o Canto da Verônica em vários momentos ao longo do trajeto, bem como as marchas fúnebres.  
     
 
 
     
  O canto da Verônica é seguida imediatamnte pelo canto das Behús, ou Três Maria, Heu! Domine, Salvatore noster (Senhor, nosso Salvador), que é seguida por Pupille, música também composta por Manoel Dias de Oliveira.  
     
 
 
     
 

Pupille facti sumus absque patre, matres nostrae viduae.

Órfãos, fomos privados de nosso pai e nossas mães são como viúvas..

 
     
  Na Catedral o coral canta Sepulto Domino.  
     
 

Sepulto Domino, signatum est monumentum, volvente lapidem ad ostium monumenti, ponentes milites, qui custodirent illum.

Tendo sido sepultado o Senhor, foi selado o sepulcro e rolaram uma pedra à entrada do túmulo e puseram soldados para guardá-lo.

 
     
  Os fiéis então formam fila para beijarem e se benzerem na imagem de Nosso Senhor Morto.  
     
 
 
     
 
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